terça-feira, 26 de março de 2013

Mundo Pós-Moderno


(Por Ruleandson Do Carmo)


No começo o homem andava curvado. Precisou de algumas gerações para que conseguisse se erguer e andar. Séculos e séculos para que andássemos eretos e o homem de hoje - para alguns, o homem pós-moderno - retrocedeu e se curva: seja para usar as tecnologias que solucionam problemas que muitas vezes não existiam, seja para viver sob a ditadura de pensamentos que não são dele e o tornam escravo de si. Tão virtuoso mundo pós-moderno. Nele, chique é gastar o dinheiro que não se tem com aquilo que não se precisa. Culto é ser bilingue ou poliglota sem antes dominar com propriedade o próprio idioma. Experiência é conhecer o mundo inteiro e menos de meia dúzia de cidades do país no qual se vive. Política é quando você desliga a TV para não ver os candidatos a governar seu país, não acompanha, não se preocupa, e depois critica. Ativismo é divulgar causas pelas quais você mesmo não age. Esporte é ignorar o time para o qual se torce e tentar provar que o time adversário é pior. Vitória não é quando se vence, mas quando se derrota alguém. Conhecimento é acumular informações inúteis sobre o que você nunca vai precisar. Inteligência é ser arrogante. Ecletismo é amar vários cantores do único estilo musical que você gosta, ou pior, admirar várias coisas em um único artista. Ser grosseiro com as pessoas é ter atitude. Falsidade é como te chamam por ser feliz e educado. Autoestima é procurar desesperadamente por alguém pior do que você. Sinceridade é quando não te telefonam mais. É incoerente, mas, ser evoluído é achar que o outro é primitivo. Crentes em Deus toleram sua própria religião e rejeitam as outras. Ateus rejeitam a todas as religiões e mesmo sem ter fé em nada, ainda assim, fazem parte da nova seita mais radical do mundo. O relacionamento mais longo que as pessoas conseguem ter é com o próprio espelho. Sexo agora se chama masturbação assistida. Acreditar é duvidar o mínimo possível. Gratidão é dizer a si mesmo que o outro não fez nada demais por você. Personalidade é dizer que prefere não se definir, não se limitar, para disfarçar que não se conhece, não se importa muito nem consigo. Perdão é se convencer de que a mágoa do outro é na verdade um melodrama. Amor é o "amor da minha vida" durante os próximos quinze minutos. Amizade só enquanto eu puder tolerar o outro e me sentir melhor do que ele. Vizinhos não é mais desejável tê-los, o ideal é não ser vizinho nem daqueles que moram dentro da sua própria casa. Sexualidade não é conhecer seus desejos, é viver somente para satisfazê-los. Curtir a vida é mais importante do que viver a vida. Orgasmos são mais importantes do que abraços. Cargos são mais importantes do que valores. Corpos são mais importantes do que o conteúdo do cérebro de quem os habita. Eterno é o que dura até o próximo hit. Pensamento crítico é quando você fala mal de alguém. Para que ter um animal de estimação se você pode se casar? Discernimento é quando te chamam de dramático ou pessimista. Vicioso mundo pós-moderno do coração inflado de um cidadão nada modesto. Adeque-se. Atente-se. Encaixe-se. Ou aprenda a saber quem é você mesmo e não o que eles querem que você seja. Ser é mais do que projetar no mundo uma imagem de si. Viva e deixe viver, mas primeiro saiba (ou tente saber) o que de fato é isso.







sexta-feira, 15 de março de 2013

Narrativas Dispersas II



Feito um esquete de telenovela que poupa no diálogo, ele zanza pela madrugada do quarto, da sala, da cozinha. Nem cogita sentir autopiedade, porque sabe que, por aí, tantos outros zanzam pela madrugada, solitários que são a rodopiarem em quartos, salas, cozinhas.

Foi educado para jamais temer casa vazia, tampouco bolso vazio. O pai esbravejava, a cada infortúnio familiar: “a gente vai sair dessa porque sim!”. Apesar de admirá-lo pela ousadia da certeza, filho que era, desejava um pouco de maciez naquela realidade ouriçada. O “porque sim!” de seu pai se tornou, ao longo de uma vida, da dele, a repetição de um desejo inalcançável. Foram tantas as negativas, que a força que havia na certeza de seu pai envelheceu com ele. Enfraqueceu-se feito os ossos de seu corpo miúdo.

Esses passeios notívagos são como uma dança secreta para acalmar o espírito. De um olho já não enxerga tão bem, apesar de ainda estar na idade dos homens com energia para descobrir uma nova versão de si mesmo e fôlego para vivê-la. Então, esmera-se em manter o coração de olhos bem abertos.

Na lista dos procurados, ele certamente poderia ocupar o cargo de bom partido para mulheres prontas para casa, cama e família. “Não é de se jogar fora”, ouviu a moça dizer, arqueando suas espessas sobrancelhas, deixando claro que lhe fizera um favor ao considerá-lo apto a se embrenhar em sua carne, partilhar do título de marido dela.

Os cabelos branqueiam mais rápido do que anteontem, lembrando a ele a magia dos calendários, sendo um dos truques desse oráculo temporal - que trança dias da semana com datas - a celebração de outro ano de sua vida. Hoje, congratulações ao homem que vagueia pelos cômodos da casa. São mais de três décadas de biografia diversa despejada na poça da sua existência.

Aqui, quase no agora, ele desembrulhou o presente vigente, e por isso tantas interrogações o desassossegam.

O que não sabe a moça do favor, é que ele não precisa de aprovação para se enveredar pelo universo de outras moças que não ela. Já enfeitiçou muitas de paixão suburbana, de poesia deslavada, de companhia confundida com eterna. A algumas nomeou parceiras, ainda que compartilhasse com as ditas apenas o tempo do gosto delas em sua boca. Não lhe faltam companhia a tiracolo, chamegos, considerações. Não lhe faltam o cuidado da amante, o zelo da esposa, a devoção da deslumbrada. O que não sabem essas divas da desilusão certeira é do motivo de ele caminhar pelos cômodos da casa, arrastando a si, enquanto relembra a facilidade de acreditar que é possível se recuperar de qualquer coisa.

O que seu pai não soube lhe ensinar, e no que ele não foi autodidata, é que a vida tem seu próprio temperamento, independente do dele. E às vezes faz um movimento diferente, lançando a qualquer um de nós à direção contrária. A vida é intransigente, em alguns momentos, feito moleque birrento querendo o doce, ou como toda pessoa que não se dispõe a aceitar a diversidade da certeza.

O “porque sim!” de seu pai era apenas um lema obscuro digerido por um menino que só queria gastar tempo brincando com seu carrinho, e que às vezes engolia a dúvida já que a resposta era sempre a mesma e definitiva. A mãe até tentara educá-lo de jeito mais amansado, cochichando em seu ouvido, quando o pai estava no outro cômodo, tentando esticar o dinheiro para cobrir as contas, os salmos, os lampejos religiosos, a necessidade dela de conhecer um Deus que a tirasse desse destino apedrejado pela falta.

Somente adolescente, o olhar mais solto, o coração pronto para tamborilar experiências, ele saboreou o desprendimento, e foi junto com uma garrafa de vinho barato. Abandonou a sua história de certezas e se jogou em uma elástica, na qual cabiam todas as versões de si, onde ele não precisava definir-se, decidir-se. Encontrou no descumprimento da certeza, no seu avesso escancarado, um lugar para não acreditar em interjeição que fosse. E tudo se acalmou, aprofundou-se, ensimesmou o homem.

As décadas compartilhadas com a vida lhe deram de prêmio uma silente dolência. Lembra-se do pai com certa tristeza, da mãe, idem. Vivera sob as asas de opostos, e escolheu para si o que tem agora.

De um cômodo a outro, quarto, sala, cozinha, e as canções rodopiando pelo recinto, rescendendo à trilha sonora daquela telenovela quase sem diálogos. Pés descalços, sentindo o chão, fumaça de cigarro que pretende, dia desses, abandonar. Tragos e tréguas.

Não há como dizer ao seu pai ou a sua mãe, ambos já falecidos de suas vidas tépidas, que sente falta do conforto de seus abraços. Nem mesmo que, aos poucos, mas com indubitável dedicação, redecorou a própria vida com a distância e os devaneios. É homem amado, porque há nele o talento para arrebanhar afeto. É homem feito para ser admirado, já que constrói, a cada dia, uma carreira de criações admiráveis. Inspira a tantos, convive com tantos, mas não alcança o entendimento entre seu mundo interior e o lá de fora.

Soubesse a moça, no seu arquear de espessas sobrancelhas, alardeando a certeza que criara baseada em percepção equivocada, que este é um homem feito para ser amado, de delicadeza capaz de pacificar ventanias. Soubesse ela, certamente deitaria a cabeça no colo dele, sucumbindo aos seus afagos, suplicando por sua benquerença. Não haveria dia em que não desejaria colher um beijo, que nele não baseasse a sua biografia, que não ficasse à mercê do tempo dele. Amaria este homem sem questionar sentimento ou condição, alimentando-se da profundidade das palavras por ele ditas, dos toques por ele oferecidos, como se tocasse um instrumento quente, macio, parindo melodia inédita.

Soubesse a moça, não brincaria com fogo. Este homem, perdido pelos cômodos da casa, sabe fazer-se amar com uma facilidade indigesta aos olhos de seus desafetos. É mestre em cultivar amor pelo simples gosto de ser amado, e colhe paixões como quem arquiteta um buquê de solidões alheias. Este homem, meus caros, é mestre em amar ser amado.

Porque sim, e pronto.


terça-feira, 12 de março de 2013

Narrativas Dispersas I




Há quinze dias recebi a correspondência de Linski. Breves palavras preenchiam o pequeno pedaço de papel. Escreveu como se estivesse com pressa. Dizia: “Chegarei ao meio-dia. Teremos tempo”. Minhas mãos tremiam enquanto eu observava aquelas palavrinhas que, por muitos dias, tentei analisar. O manuscrito se tornara gasto de tanto que eu o abria e o fechava. Cheguei a colocá-lo na porta da geladeira preso por quatro imãs em forma de maçã. E, sempre que eu passava pela cozinha, eu lia e relia e parecia estar ouvindo a voz de Linski. Eu repetia em voz alta o que ele havia escrito. Ah, como me senti imponente. Então chovia e era sol. O dia estava maravilhosamente combinativo ao meu estado de espírito. Desde que recebera a correspondência, planejei todo o trajeto deste dia que é hoje. Mudei os móveis de lugar, Comprei livros, arrumei a velha escrivaninha onde Linski costumava passar horas deleitando-se em palavras. Era meu triunfo vê-lo sentado debruçado sobre seus papéis. Era seu estado criativo, costumava dizer. “Há horas em que preciso ficar sozinho”. Ele me dizia todas as coisas em seu tom imperativo. Eu o servia de chá e café. Fazia de tudo para que nada perturbasse o silêncio de Linski. E agora ele está de volta. Quantas horas irá ficar? Suspiro. Meu êxtase é imenso e sinto-me invencível. Posso sorrir. A bem da verdade, desde que recebi a correspondência, um alardeante sorriso movimenta minha face. Decidi não esconder minha alegria. Afinal, chegara o tempo de rever Linski e eu precisava celebrar sua companhia. Era como se ele já estivesse aqui.  Desde que Linski mandou-me dizer que estaria comigo, sinto sua presença. Ele está nos quadros, nas fotografias, em seu armário por tempos vazio. Ele ocupa o quarto, a cama e os lençóis exalam o aroma de Linski. Ele está mais presente que nunca. E hoje conversaremos. Ensaiei todo meu discurso. Preciso lembrar que devo agir de forma gentil e sorrir discretamente. Linski não suporta comportamentos estrondosos. Mostrarei as mudanças que fiz na casa, a tapeçaria, e não falarei a respeito de Vilma. Nada irei alarmar. Linski provavelmente irá me contar de sua vida e eu ouvirei com distinta atenção. Não usarei interjeições ou gafes exclamativas. Sequer demonstrarei surpresa. Meu porte será de um ligeiro interesse como se eu houvesse mudado meu hábito de idolatria. Estarei fervendo por dentro. Tenho certeza disso. Abortarei alegrias e atitudes furtivas por revê-lo. Poderia abraçá-lo ao invés de manter o recato que silencia prisioneiros. Eu poderia fazer soarem trombetas angelicais à chegada de Deus. Tomaríamos vinho tinto e logo estaríamos rindo espalhafatosamente. Ah, como seria bom retê-lo desta forma. Mas devo exercer neutralidade. Fingirei não ter vida. E, agora que aguardo a chegada de Linski, algo toma o lugar de minha atitude centrada. Por que não posso celebrar em uivos a chegada de Linski? Por que não posso deixar a louca rebeldia dos contentes tomar conta de mim? Por que não me desmantelar em efusivo estado de alforria? Por que não o afago de saudade? Por que devo comportar-me em retidão? Linski me desalinhou de meus desejos. Ele me entortou a vida e agora retorna grandioso esperando que eu finja discernimento justo quando me irradia a ansiosa liberdade de um largo sorriso. Não! Definitivamente não! Ele não fará isso comigo. Por anos eu caminhei na ponta dos pés para não incomodar o exílio de Linski. Agora que o tempo engoliu meu obrigatório comportamento de lealdade, por que devo me privar de viver o que sinto? Quem você pensa que é, Linski? Deus? Imperador? Um ditador em supremacia? A cólera me invade e rasgo em filetes de indignidade a correspondência de Linski. Não serei mais o bicho coagido. Vê? Liberei de mim as amarras dos acorrentados anos às suas ordens. Sou outra pessoa, Linski. Não o quero em minha casa. A vida precisa seguir, agora sem a presença real ou irreal de Linski.

E, ao meio dia, a campainha anuncia a chegada de Linski. Ninguém o recebe à porta. Ele não entende. Deveria ser recebido. Insiste algumas vezes mais e, contido em seu comedido modo perfeito, Linski retorna à rua e volta ao esquecimento. Ergo uma taça de vinho, brindo meus arroubos de euforia e não me arrependo por não tê-lo visto. Linski não faz mais sentido. Definitivamente está fora da minha vida.